A chuva não é mais um acaso de verão. Permanece. Curta, limpa, embaça os olhos, liberta a alma. Permanece. Por um acaso, quem sabe. As gotinhas cadentes na janela da sala, deslizando no vidro, caindo devagar. Esbarram-se. Multiplicam-se. Escurece a casa. Alguns poucos ainda caminham escondidos, fugindo. Não vejo ninguém se arriscando a molhar os cabelos, sujar as calças de lama. Não há ninguém por aí. Corre pra calçada. - NÃO HÁ NINGUÉEEM? Só a chuva que continua. As arvores dançando com o vento, as folhas provocando música. E ela dança, lento-rápido-devagar. Vagando. Sozinha por aí, correndo, pulando, dançando porque a chuva não quer parar. - Ah se fosse sempre assim... Assim talvez ela não gostasse tanto de molhar os cabelos. E as roupas encharcadas, quase nua. Transparente. Se deita no gramado verde do vizinho, olha o céu, as gotas de chuva e fecha os olhos. Sente os chuviscos, seu corpo, as partes quentes. Nenhum pensamento restante. - NÃO HÁ NINGUÉM AÍII? Abre os olhos e avista outro alguém distante. Camiseta branca e calça jeans. Correndo, pulando, cantando. Os dois olhares a sós. Só a chuva que continua nesta breve noite de verão.
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escrevi isso a alguns anos. |